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Julia Uherek: Interior Lifestyle conecta Brasil ao mundo

O Brasil se tornou a porta de entrada da Messe Frankfurt para a expansão da marca Interior Lifestyle na América Latina. Em parceria com o Grupo Eletrolar All Connected, a organizadora da Ambiente Frankfurt aposta no potencial da economia brasileira para conectar fabricantes, varejistas e compradores internacionais em um novo hub de negócios para os setores de casa, decoração e lifestyle.

Segundo Julia Uherek, vice-presidente de Consumer Goods Fairs da Messe Frankfurt, a estratégia combina o conhecimento do mercado local do Grupo Eletrolar com a rede global da organizadora. O objetivo é aproximar empresas latino-americanas de compradores internacionais e levar ao continente tendências globais em design, decoração e bens de consumo.

Em entrevista exclusiva à Eletrolar News, a executiva também analisa o momento do comércio mundial diante das mudanças nas relações comerciais, explica por que a sustentabilidade deixou de ser um diferencial para se tornar um requisito básico e aponta como a inteligência artificial está transformando o varejo sem substituir o valor das conexões presenciais.

Para ela, em um cenário de novas oportunidades impulsionadas pelo acordo entre União Europeia e Mercosul, empresas que desejam crescer internacionalmente precisam investir em visibilidade, construir marcas fortes e ampliar sua rede de relacionamentos. “As pessoas ainda querem fazer negócios com pessoas”, resume.

Confira o bate-papo completo:

Eletrolar News – O que motivou vocês a trazer a marca Interior Lifestyle para a América Latina nessa parceria com o Grupo Eletrolar All Connected?

Julia Uherek – Para nós, da Messe Frankfurt, o foco é levar nosso portfólio de bens de consumo para diferentes regiões do mundo. E nós ainda não estávamos presentes no mercado sul-americano. Percebemos que especialmente o Brasil está crescendo muito, com uma economia em expansão e bastante dinâmica. É o maior mercado econômico da América do Sul. Então decidimos trazer, primeiro, nosso portfólio de bens de consumo para cá.

Além disso, o Grupo Eletrolar nos procurou propondo uma colaboração. E entendemos que aquele era o momento perfeito para iniciar essa trajetória no Brasil com um parceiro tão forte. Porque, especialmente no Brasil, não é fácil entrar em um mercado que já é bastante maduro, com muitas feiras acontecendo. Lançar uma nova feira sozinhos não seria o melhor começo.

Por isso, optamos por essa parceria. Com o Grupo Eletrolar, temos uma colaboração realmente muito sólida. O Grupo conhece o mercado profundamente, tem uma expertise muito forte, enquanto nós trazemos nossa rede internacional e as tendências globais que observamos ao redor do mundo. A união desses dois quesitos cria um excelente ponto de partida para a Interior Lifestyle.

Como a Interior Lifestyle se diferencia de outras feiras dedicadas ao design de interiores e produtos de lifestyle?

As feiras nas quais estamos focados fazem parte da feira-mãe de bens de consumo Ambiente, em Frankfurt, Alemanha. A Ambiente abrange todo o segmento de produtos de lifestyle e bens de consumo: artigos de mesa, utensílios de cozinha, produtos para o lar, design de interiores, decoração, presentes, papelaria e mobiliário — ou seja, todo o universo de decoração para casas.

Com isso, decidimos focar também em mercados regionais, oferecendo uma gama ampla de segmentos de produtos. Mas não queremos nos concentrar apenas em fabricantes locais. O objetivo é reunir expositores internacionais para atrair varejistas da região, não só do Brasil, mas de toda a América Latina, e transformar a feira em um verdadeiro hub internacional de negócios para o varejo.

E isso não vale apenas para o varejo. Também queremos atrair visitantes do segmento de contratos, como hotelaria, restaurantes, catering e outros tomadores de decisão desse mercado.

Assim, os expositores que participam da feira encontram o leque mais amplo de oportunidades de negócios que podem esperar dessa região.

Quais oportunidades essa iniciativa cria para marcas que buscam expandir sua presença no Brasil ou em toda a América Latina?

Junto com o Grupo Eletrolar e a Eletrolar Show, conseguimos oferecer, desde o início, acesso direto a varejistas, distribuidores, importadores, atacadistas e aos principais players de e-commerce da região.

Durante a feira, por exemplo, encontrei dois clientes que já eu conhecia da Europa, um da Alemanha e outro da Dinamarca. Eles estão participando pela primeira vez da Interior Lifestyle por meio de seus distribuidores brasileiros. Mas é a primeira vez que vêm ao Brasil para conhecer e explorar o mercado. E eles ficaram impressionados desde a primeira hora com a quantidade de clientes interessantes e potenciais varejistas que encontraram.

Para mim, esse foi o melhor exemplo de como conseguimos conectar o lado internacional com o mercado local e gerar novos negócios para todos.

E como você enxerga as conexões, parcerias e oportunidades de negócios entre visitantes e expositores?

É importante entender que a Messe Frankfurt tem cerca de 800 anos de história. Em 1240 realizamos nossa primeira feira de bens de consumo. Na época, eram outros tipos de produtos, mas já conectávamos a parte oriental do mundo com toda a Europa. Comerciantes vindos das Américas também viajavam para a Europa para negociar.

A partir daí, construímos uma rede global com subsidiárias e parceiros comerciais em 180 países. Todos eles contribuem com conhecimento e experiência para essa rede.

Foi justamente por isso que também escolhemos trabalhar com o Grupo Eletrolar. Eles trazem o conhecimento do mercado brasileiro e sul-americano. Nós temos uma subsidiária na Argentina, que também contribui com conhecimento regional, além de toda a nossa experiência internacional.

Hoje vemos um cenário mundial bastante desafiador, especialmente para o comércio e o varejo. As tarifas impostas pelo presidente Donald Trump, por exemplo, criaram desafios para o comércio global. Diante disso, as empresas precisam encontrar novos parceiros de negócios e construir redes mais resilientes, diversificando suas relações comerciais e ampliando suas exportações.

Essa é justamente a proposta que queremos desenvolver com a Interior Lifestyle: ampliar as oportunidades tanto para fabricantes brasileiros quanto para varejistas da região, conectando-os às empresas internacionais que trazemos para a feira.

Como vocês enxergam a América Latina do ponto de vista estratégico para a Messe Frankfurt?

O mais recente acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul representa um avanço muito importante para a economia dessas duas regiões. Temos recebido muitas consultas de fabricantes e varejistas da União Europeia perguntando se podemos ajudá-los a explorar o mercado sul-americano.

Ao mesmo tempo, ouvimos a mesma demanda por meio da nossa subsidiária na Argentina. As empresas estão buscando expandir seus negócios para além de seus próprios mercados e regiões.

Além disso, não observamos crescimento apenas no comércio e no varejo. O setor de hospitalidade também está crescendo muito na região. O turismo deve continuar avançando nos próximos anos e, por isso, enxergamos muitas oportunidades para desenvolver novos negócios aqui no Brasil em conjunto com nossos parceiros.

A Ambiente Frankfurt é reconhecida mundialmente como uma referência em design de bens de consumo. Trazer a Interior Lifestyle para a América Latina também significa trazer essa inspiração internacional para a região?

Com certeza. Acho que contamos com um ecossistema muito forte, no qual expositores e visitantes têm acesso às tendências internacionais, inteligência de mercado e conexões de negócios.

Todos os anos elaboramos uma previsão de tendências, apontando novas cores, materiais e padrões para os setores de design de interiores e decoração. Desenvolvemos esse trabalho em parceria com uma agência especializada e montamos uma grande apresentação de tendências durante a Ambiente.

Pensamos que seria importante trazer esse conteúdo também para o Brasil. Não na mesma escala da Alemanha, mas em um formato mais compacto.

Dessa forma, conectamos diferentes regiões do mundo por meio das tendências globais. As cores, materiais e padrões são apresentados utilizando produtos reais dos expositores, permitindo que os visitantes visualizem, de forma bastante prática, quais serão as principais tendências para o mercado de bens de consumo na próxima temporada.

Falando sobre tendências… a sustentabilidade é realmente um diferencial?

Nos últimos anos, esse foi um tema muito discutido e esteve no centro das atenções. Hoje, se você olhar para a mídia ou para as conversas entre empresários, parece que o assunto perdeu um pouco de destaque.

Mas isso não significa que a sustentabilidade deixou de ser uma tendência. Pelo contrário. A questão é que ela passou a ser considerada algo obrigatório. As pessoas entendem que ela simplesmente precisa existir. Não é mais um diferencial sobre o qual seja necessário falar o tempo todo.

Os produtos precisam ser sustentáveis, os materiais devem ser recicláveis, e os processos de fabricação precisam ser adaptados para causar menos impacto à natureza. Em outras palavras, a sustentabilidade precisa fazer parte naturalmente de todo o processo produtivo.

Além disso, existe uma questão importante na União Europeia. Hoje há um forte foco em regulamentações que afetam não apenas empresas que desejam importar ou exportar para o bloco, mas também as próprias empresas europeias.

Uma dessas medidas é a nova regulamentação contra o greenwashing. Isso significa que as empresas precisam ter muito cuidado com tudo o que comunicam. Se afirmam, por exemplo, que são neutras em carbono ou fazem qualquer alegação ambiental, precisam comprovar isso. Caso contrário, podem sofrer uma reação negativa do mercado.

Por isso, vemos que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma tendência. Ela passou a ser um requisito básico para fazer negócios.

Mudando um pouco de assunto, a digitalização e o e-commerce estão transformando o varejo. Como essas mudanças também impactam as lojas físicas e o futuro do varejo de bens de consumo?

A digitalização e, principalmente, a inteligência artificial estão transformando profundamente o varejo. E não apenas o varejo, mas também a forma como fabricantes e varejistas fazem negócios entre si no mercado B2B.

Ao mesmo tempo, existe algo que continua igual e que permanece assim há cerca de 800 anos, desde o início da nossa história: as pessoas querem encontrar outras pessoas.

A IA pode ajudar a tornar os negócios mais eficientes e produtivos, especialmente em tarefas repetitivas do dia a dia. Mas, quando falamos de inspiração, de conhecer novos parceiros e de construir relações de confiança, a inteligência artificial não consegue substituir o contato humano.

Você precisa olhar nos olhos da outra pessoa. Precisa apertar sua mão e fechar um acordo pessoalmente. É isso que realmente constrói relações de longo prazo.

Por isso, acredito que as feiras de negócios continuarão sendo fundamentais, justamente porque proporcionam esse encontro presencial.

Do ponto de vista do comportamento do consumidor, é claro que haverá mudanças. As pessoas não irão mais às lojas apenas para comprar um produto. Elas podem fazer isso pela internet, pelo e-commerce.

O motivo para visitar uma loja física ou um shopping será outro: buscar inspiração e viver uma experiência.

Por isso, o varejo experiencial (experiential retail) será um dos principais caminhos para que as lojas físicas continuem relevantes para o consumidor final. Caso contrário, as pessoas simplesmente comprarão tudo pelo celular e receberão os produtos em casa.

E, para finalizar, qual conselho você daria às empresas latino-americanas que querem crescer internacionalmente e exportar para a Europa ou para outros mercados globais?

Eu diria que o principal é investir na visibilidade da marca. Não basta permanecer conhecido apenas dentro do seu país. É preciso construir uma marca reconhecida internacionalmente, desenvolver uma rede sólida de contatos ao redor do mundo e se conectar diretamente com compradores internacionais, não apenas com os da própria região. Isso é fundamental para conseguir expandir os negócios.

Algo que observo é que, às vezes, expositores internacionais da Ambiente, por exemplo, chegam à feira pensando que os negócios simplesmente vão acontecer. Eles ficam no estande esperando os clientes aparecerem, mas não trabalham a construção da própria marca.

É preciso ser visto. Se você tem uma boa história para contar, oferece produtos de qualidade e possui um bom trabalho artesanal ou industrial, deve mostrar isso ao mercado. Acredito que essa é a melhor estratégia.

Outro ponto importante é que as empresas acompanhem os acordos comerciais firmados entre diferentes países. O sistema de tarifas está passando por muitas mudanças, e essas transformações também criam oportunidades de negócios.