Monetizar dados não se resume a cobrar pelo acesso a eles. Para Pedro Chiamulera, fundador da Clearsale (hoje parte da Serasa Experian) e CEO da AI Brasil, trata-se de uma jornada de longo prazo, no qual os dados são coletados, analisados e encaixados dentro de processos cujo objetivo final é resolver problemas – o valor, então, surge organicamente para o negócio que se aproveita desse potencial.
“O mais importante é como tratamos esse dado e como tiramos valor dele”, disse o experiente executivo no palco da Eletrolar Show All Conected 2026.
O executivo exemplificou sua tese contando um pouco da história de crescimento da própria Clearsale, vendida para a Serasa Experian em outubro de 2024 por R$ 2,5 bilhões. A empresa nasceu em 2001 como provedora de soluções antifraude nos primórdios do e-commerce brasileiro.
“Lá atrás ninguém dava valor para o dado. Quando começamos a capturar as transações havia um grande problema, a fraude do cartão de crédito. O dado era interno, ficava dentro das empresas. E as pessoas não sabiam como lidar com aquela informação”, lembrou o executivo. “A primeira coisa que fizemos foi usar tecnologia para capturar o dado. Acreditem se quiser, mas naquela época ainda era tudo feito à mão. E isso acontece ainda hoje.”
Depois de entender o valor daquele dado, é então preciso incorporá-lo em um processo maior e resolver grandes problemas de negócio. E é aí que surge seu real valor e alternativas de monetização. Esse potencial ficou ainda maior recentemente, com a possiblidade de enriquecer bases de dados das empresas com outras, fazendo correlações.
“Estamos nesse boom de IA, e as pessoas acham que é só ligar. Está muito mais fácil hoje que antigamente, mas o desafio maior é estruturar a jornada do dado, entender quais são as partes que se pode capturar e, a partir daí, entender o contexto para assertividade maior”, disse Chiamulera. “Sem isso não adianta botar IA, não vai funcionar”.
Orçamento automotivo
Pedro Chiamulera também deu como exemplo de sucesso no uso de dados a Cilia, empresa de Goiânia (GO) especialista em automação de orçamentos para automóveis. A empresa usou sua grande base de dados de orçamentos feitos após batidas e acidentes para criar um modelo de IA capaz de analisar fotos de automóveis e oferecer um orçamento completo em minutos.
“Um dos fundadores da Cilia era perito. Ele era muito criterioso, tirava foto, registrava tudo. Tinha um banco de dados e um processo sobre ele. A empresa começou a automatizar e coletar mais dados. E foram ajustando”, contou o executivo.
“Com a IA eles buscaram um jeito e colocaram para rodar um primeiro caso de uso. Um dado que você pensa que não serve pra nada pode fazer toda diferença não só para a monetização, mas para o negócio”, completou.


